100 mil em 100

Anabela Fino

«Ninguém nos impedirá; nem Haia, nem o eixo do mal e nem quaisquer outros que recorram ao Tribunal Internacional de Justiça.» Palavras do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que na passada sexta-feira recebeu o apoio da Alemanha à carnificina que Israel está a cometer há 100 dias na Faixa de Gaza.

«O governo federal rejeita firme e expressamente a acusação de genocídio que agora foi feita contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça. Esta acusação não tem qualquer fundamento», lê-se no comunicado de Berlim, que levou Netanyahu a dizer ao chanceler Olaf Scholz que «a sua posição ao lado da verdade comove todos os cidadãos de Israel».

A troca de mimos ocorre quando o balanço da «defesa israelita» se cifra em cerca de dezenas de milhares de mortos e mais de 60 000 feridos na Faixa de Gaza, a que se juntam os cerca de 400 palestinianos assassinados na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, números que comparam com os 1147 israelitas mortos e os cerca de 2000 feridos no ataque do Hamas, segundo fontes militares israelitas.

A brutal desproporção da macabra contabilidade – e sim, todos são vítimas – é evidenciada pelo Observatório Euro-Mediterrâneo de Direitos Humanos (Euro-Med) na sua mais recente informação: «Cerca de 100 000 palestinianos foram mortos, dados como desaparecidos ou feridos desde 7 de Outubro de 2023 devido ao genocídio em curso de Israel na Faixa de Gaza.» Assinalando os 100 dias de barbárie, o Euro-Med dá conta de que 31 497 palestinianos foram mortos na Faixa de Gaza até 13 de Janeiro de 2024, dos quais 28 951 (92%) eram civis, incluindo 12 345 crianças, 6471 mulheres, 295 profissionais de saúde, 41 funcionários da defesa civil e 113 jornalistas. O Euro-Med informa ainda que 61 079 pessoas ficaram feridas, centenas delas em estado crítico, e que cerca de dois milhões de pessoas, mais ou menos 85% da população total da Faixa de Gaza, foram deslocadas das suas casas e áreas residenciais, já que 69 700 unidades habitacionais foram completamente destruídas e 187 300 unidades habitacionais foram parcialmente danificadas.

Face a tamanha atrocidade que Philippe Lazzarini, chefe da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Médio Oriente (UNRWA), diz que «a morte em massa, a destruição, o deslocamento, a fome, a perda e a dor dos últimos 100 dias estão a manchar a nossa humanidade partilhada».

É dizer pouco. É preciso inventar novas palavras para este universo que faz parecer o mundo owerliano um conto de fadas. A hipocrisia, a falsidade, a subversão de valores, a desumanidade, o engano, a demagogia, já não traduzem o que se passa nestes tempos de estertor da besta imperialista. Ninguém pode dizer que não sabia. Cem mil em cem não é contabilidade. É genocídio.




Mais artigos de: Opinião

Está na hora de aumentar os salários!

Há muito que o PCP coloca a ideia do aumento dos salários como uma emergência nacional. Aliás, se ao longo dos últimos meses se falou de salários, foi precisamente porque temos vindo a dar centralidade a esta questão como elemento fundamental. Por isso temos afirmado: é justa, necessária e...

Cumplicidade

Não será demais afirmar que vivemos momentos sombrios e de horror na Palestina, em consequência da agressão de Israel, apoiada pelos EUA, NATO e UE. Como afirmar que mais uma criança, uma mulher, um idoso ou simplesmente um civil foi morto num bombardeamento em Gaza ou assassinado noutros territórios ocupados pelas...

Quando os lobbies uivam

O líder parlamentar do PS acusou, na passada quinta-feira, o PSD de ter «cedido às pressões» dos interesses que se opõem à regulamentação do lobbying, considerando que se perdeu uma «oportunidade única» para a Assembleia da República legislar sobre a matéria. Eurico Brilhante Dias manifestou «preocupação e alguma...

Iémen – urge parar a escalada!

O partido da guerra que controla os EUA decidiu abrir, em articulação com o Reino Unido, uma nova frente de guerra no Médio Oriente, uma decisão que pode incendiar toda a região. Os bombardeamentos norte-americanos ao Iémen são um passo consciente e programado numa estratégia criminosa de juntar mais tensão, violência e...

Quadros na parede

Discursando num almoço em Viana do Castelo no passado sábado, Mariana Mortágua, coordenadora do Bloco de Esquerda, referiu-se ao Chega e a André Ventura em termos que no essencial podemos acompanhar. A determinada altura, criticando também a «corrida de gente da IL, do CDS e do PSD para conseguirem à última da hora...